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Prevenção na Infância da Doença Cardiovascular

Por Dr. Percy Arantes Salviano

(Resumo e adaptação de Boletim do Departamento Científico de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, fevereiro de 2006)

A doença cardiovascular, especialmente a isquemia coronariana (infarto do miocárdio) constitui importante problema de saúde pública nos países desenvolvidos e em muito países em desenvolvimento. Nas últimas décadas, uma elevaçãp expressiva da taxa de mortalidade por essas doenças foi observada no Brasil.
A relação entre determinados fatores de risco e o acelerado processo de aterosclerose, no adulto, está bem estabelecido. Entre os principais fatores de risco estão a obesidade, a hipertensão arterial, as dislipidemias (elevações dos níveis sanguíneos de colesterol e triglicéridos), o diabetes, o sedentarismo, o tabagismo e a história familiar de doença cardiovascular. As manifestações clínicas da aterosclerose, em geral, surgem a partir da meia idade, mas já foi demonstrado que o processo aterosclerótico começa a se desenvolver na infância, relacionado à presença dos mesmos fatores de risco identificados no adulto:

1) Obesidade – É importante fator de risco, pois está associado à síndrome metabólica que inclui a hipertensão arterial, níveis elevados de colesterol e alterações no metabolismo da glicose. O obeso tem, portanto, maior predisposição ao desenvolvimento da doença cardio-vascular. O controle da obesidade infantil é a estratégia mais efetiva para impedir a instalação da doença arterial coronariana, na fase adulta. Quando ocorrer aumento excessivo de peso em relação à estatura, independente da idade e principalmente quando os pais são obesos, há necessidade de orientação nutricional para evitar o desenvolvimento da obesidade, porque uma vez instalada, fica muito mais difícil a reversão do quadro. A criança e o adolescente já obesos necessitam de tratamento adequado para prevenir a persistência da obesidade na fase adulta. Os melhores resultados são obtidos quando a família participa ativamente do processo, modificando hábitos alimentares inadequados e diminuindo o comportamento sedentário.

2) Sedentarismo – Há muitas evidências científicas mostrando que o sedentarismo aumenta o risco de ocorrer obesidade, diabetes mellitus tipo II e doenças cardiovasculares. Por outro lado, estudos têm demonstrado que o exercício físico regular reduz a incidência e a mortalidade por essas doenças e aumenta a expectativa de vida. No entanto, observa-se que o nível de atividade física tem diminuído entre crianças e adolescentes. Os momentos de lazer passaram a contribuir para o aumento do sedentarismo, já que as crianças e e os adolescentes ficam horas sentados em frente à TV, ao vídeo-game e ao computador.

3) Dislipidemias – Vários estudos verificaram correlação significativa entre as dislipidemias (valores aumentados de LDL-colesterol e triglicérides, valores reduzidos de HDL-colesterol) e doenças coronarianas. O colesterol sérico geralmente apresenta comportamento padrão ao longo da vida de um indivíduo. Cerca de 40 a 50% das crianças que apresentam valores de colesterol e LDL-colesterol nos patamares mais altos, permanecem com níveis elevados após 10 a 15 anos.

4) Hábitos alimentares inadequados – Nas últimas décadas ocorreram mudanças no hábito alimentar do brasileiro, principalmente nos grandes centros, em que parte da população realiza refeições fora de cada ou ingere produtos industrializados. Crianças e adolescentes também estão vulneráveis a essas mudanças no padrão alimentar preferindo alimentos de preparo rápido e simples, em detrimendo do consumo de frutas, hortaliças e leguminosas. Os principais nutrientes que influenciam os níveis sanguíneos de lípides são as gordurs saturadas, trans e o colesterol. Por outro lado, há evidências que o consumo regular de nutrientes antioxidantes, como fibras, potássio, gorduras mono e polinsaturadas, previnem o desenvolvimento de doença aterosclerótica e hipertensiva. Outros estudos populacionais relacionam o consumo elevado de sódio (sal) e o aumento da pressão arterial, enquanto que a redução desse nutriente na alimentação pode reduzir o risco de doença cardiovascular e o número de mortes por esta doença.

5) Histórico familiar - A ocorrência de doença cardiovscular precoce em parentes de primeiro grau é considerado um dos mais importantes fatores de risco, pois as doenças cardiovascualres apresentam agregação familiar. O risco será tanto maior quanto mais jovem for o familiar afetado e também quanto maior for o número de familiares de primeiro grau acometidos. A história familiar deve ser sempre atualizada e relacionada aos pais, avós, tios e tias que apresentaram doença cardiovscular antes dos 55 anos para os homens e dos 65 anos para as mulheres. Também devem ser incluídas informações sobre obesidade, hipertensão arterial, dislipidemias, diabetes e tabagismo entre os familiares.

As Recomendações para Prevenção da Doença Cardiovascular devem ser baseadas no controle dos fatores de risco, centradas na obtenção de um estilo de vida saudável.

Dieta:
Adequar a quantidade e qualidade de alimentos com as necessiddes de energia para o crescimento e desenvolvimento normais.
Fazer substituições apropriadas para manter o peso corporal adequado ou perder peso, quando necessário.
Estimular o consumo de frutas, legumes, verduras, grãos integrais, peixes, aves, carnes vermelhar magras e carboidratos complexos.
Limitar o consumo de carboidratos simples, açúcar refinado e produtos industrializados já adoçados (sucos, achocolatados, refrigerantes, sorvetes, doces...)
Limitar a ingestão de sal. Controlar a quantidade de sal adicionada no preparo dos alimentos, o consumo de produtos industrializados (congelados, desidratados, enlatados, em conserva, temperos, salgadinhos...) e demais alimentos ricos em sódio (embutidos, queijos amarelos, carnes conservada em sal).

Estimular o uso de óleos vegetais (soja ou canola) para o preparo de alimentos cozidos, assados ou refogados e óleo de soja, de canola ou azeite, para as saladas

Atividade Física:
Aconselhar a prática de atividade física moderada durante 30 minutos diários ou atividade física intensa durante 30 minutos, 3 a 4 vezes por semana.
A atividade física para crianças e adolescentes deve ser lúdica

Para os adolescentes, exercícios de resistência (10 a 15 repetições), com intensidade moderada, podem ser combinados com atividade aeróbica.
Diminuir o tempo gasto com atividade sedentária (p ex. limitar o tempo com TV, vídeo-games, computador, etc. para no máximo 2h/dia.

Tabagismo:
Desaconselhar com veemência o início do hábito de fumar
Questionar e desaconselhar o tabagismo entre os pais, familiares e outros responsáveis pelo cuidado de crianças e adolescentes.
Advertir sobre os efeitos nocivos de ser fumante passivo (em casa, na escola e no trabalho).

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