
Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade
Médicos, pais e professores não podem ficar indiferentes
Dr. Paulo Aligieri
(Publicado na Revista Vacinação Nº2 – Maio 2007 – Ano XII)
Crianças distraídas, inquietas, desastradas e com problemas escolares freqüentemente não são assim porque querem nem é culpa da família. Todos estas coisas acontecem porque elas têm o chamado Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade/Impulsividade (abreviado como TDAH em português ou ADHD, em inglês) . O transtorno, que não é raro, costuma se manifestar na infância mas há adultos que o apresentam sem nunca terem chegado ao diagnóstico. É de extrema importância identificar esta condição porque determinadas condutas (incluindo terapêutica medicamentosa) podem corrigir ou atenuar as manifestações, reduzindo danos e perdas, tanto para o portador do TDAH, como para sua família. Médicos que atendem crianças, professores e administradores escolares precisam conhecer melhor esta questão.
Quando suspeitar do problema
O TDAH não tem uma causa específica e isto não se deve estranhar se lembrarmos que a hipertensão arterial essencial, tão comum, também não tem causa comprovada. Entre diferentes pessoas afetadas pelo transtorno, embora as manifestações não sejam exatamente as mesmas, elas são semelhantes e se distribuem em dois grupos:
A – Desatenção: dificuldade em se concentrar tanto em brincadeiras como nas tarefas, erros por desatenção, dificuldades para completar incumbências, perda de objetos por falta de zelo, esquecer de coisas a fazer no cotidiano.
B – Hiperatividade e impulsividade: mexer muito mãos e pés, agitar-se na cadeira (ou “por dentro” nos mais velhos), correr ou trepar quando isto é inadequado, falar muito, dificuldade para se manter quieto quando isto é desejável, não aguardar sua vez, intrometer-se na conversa dos outros.
Todo mundo pode ter alguns destes sintomas. No TDAH, eles são muito mais freqüentes. Na forma mais comum, predominam os sintomas do grupo A.
As atitudes dos pais não são a causa do TDAH mas podem acentuar comportamentos inadequados. Quando são bem informados e orientados sobre o transtorno, os pais reduzem muito as conseqüências da enfermidade sobre os filhos. Mas não é tarefa fácil nem momentânea, é preciso informação, planejamento, parceria entre pai, mãe (incluir outras pessoas da casa) e a escola (1).
Extrema importância da escola
As professoras devem ter treinamento para suspeitar de TDAH quando uma criança apresenta problemas. Todos que ensinam devem aprender a diferenciar TDAH da “má-educação”, “preguiça” ou “indolência”. Terão que equilibrar as necessidades dos demais alunos com a dedicação necessária para cuidar de uma criança com TDAH.
No TDAH a criança tem grande dificuldade para atender regras que difere da falta de vontade de atender a regras decorrente de problemas comportamentais. As vezes, o TDAH pode coexistir com questões comportamentais, o que complica muito as coisas.
Quanto ao desempenho das crianças que tem o transtorno, os resultados variam muito. Muitas apresentam resultados abaixo do esperado em relação aos seus pares e ao seu potencial, não sendo raras as repetições. Os fatores que influenciam este futuro são a inteligência e a presença de problemas emocionais, geralmente ligados a famílias com disfunções inerentes ao próprio agrupamento familiar (que podem se agravar ao enfrentar o enigma de um filho com TDAH). O professor precisa ter mais “jogo de cintura” e ser preparado para criar alternativas, avaliando qual delas tem maior êxito para aquela situação particular.
Exemplos de conduta prática
O professor orientado toma iniciativas capazes de apontar na direção do transtorno de déficit de atenção ou se há outro problema. Seguem duas sugestões:
1. Se dividir uma tarefa em etapas menores que exijam que a criança permaneça concentrada apenas por pequenos períodos e a tornar mais estimulante, a criança com TDAH poderá fazer todo o exercício com pouco ou nenhum erro. Se continuar a dificuldade, o professor pode desconfiar de um transtorno do aprendizado associado.
2. Alunos com TDAH costumam errar coisas apenas porque não prestaram atenção a alguns detalhes ou porque fizeram leitura “automática”. Se o aluno é incapaz de abstrair conceitos, se não consegue armar contas, não consegue interpretar textos mesmo quando colocado em condições ideais de concentração e sinalizamos aspectos que pode estar negligenciando por desatenção, é provável que exista outro transtorno associado.
Desconhecimento da etiologia não impede tratamento
Metilfenidato (ritalina) é um psicoestimulante do grupo dos anfetamínicos cujo emprego no TDAH já está firmado, embora haja preconceito, inclusive dos médicos, provavelmente porque se associa ao uso abusivo (2). Quando usada corretamente, sua eficácia e segurança estão comprovadas.. A dose inicial, de acordo com o peso da criança, é de 2mg / Kg de peso. As tomadas devem ser dadas preferencialmente pela manhã e na hora do almoço, para não prejudicar o sono. Como tem eliminação rápida, outros fármacos vem sendo introduzidos, como a dexamfetaminesulfato e a atomoxetina (3).
Escores para diagnóstico(4)
Perca as esperanças se você esperava que um exame de laboratório ou uma imagem pudessem definir ou excluir o diagnóstico de TDAH. Isto ainda não existe, o diagnóstico é clínico e se baseia em observar aquilo que a criança faz. Assim sendo, cresce o papel do professor que pode comparar o “investigado” com outras crianças. Há escores compostos por listas contendo dezenas de perguntas que revelam os dois componentes do problema: a desatenção e impulsividade. Elas devem ser respondidas com “nunca”, “as vezes”, “com freqüência” e “com muita freqüência” para compor um escore. Seguem alguns exemplos destas indagações:
- Comete erros por falta de atenção aos detalhes?
- Dificilmente mantém atenção nas atividades e tarefas?
- Parece não prestar atenção ao que lhe é falado?
- Não segue instruções para um trabalho (não por se opor nem porque não compreende as instruções)?
- Mãos estão sempre em movimento?
- Fala bastante, mesmo quando deveria se aquietar?
- Interrompe outros ou se intromete?
- Tem dificuldade para se manter na fila?
- Responde antes do término da pergunta?
- Inicia brigas com colegas?
Referências:
- Mattos R. No mundo da lua: perguntas e respostas sobre transtorno do déficit de atenção e hiperatividade em crianças, adolescentes e adultos. Lemos Editorial- São Paulo. 2005.
- Methylphenidate double-blind trial: indication and performing. Bliznakova L, et al. Klin Padiatr. 2007 Jan-Feb;219(1):9-16.
- King S et al. A systematic review and economic model of the effectiveness and cost-effectiveness of methylphenidate, dexamfetamine and atomoxetine for the treatment of attention deficit hyperactivity disorder in children and adolescents. Health Technol Assess. 2006 Jul;10(23):iii-iv, xiii-146.
- Vanderbit ADHA Diagnostic Teacher Rating Scale. Acesso em www.brightfutures.org. Acessado em 06/02/2007.
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